Sempre fui um entusiasta do software livre e código aberto. Atualmente, há uma campanha em nível mundial, para adoção do formato aberto para documentos, o ODF. Nada mais justo, que um documento gerado hoje, possa ser lido daqui a alguns anos com a mesma qualidade e clareza. Dentro desta filosofia, um fato parece ter chamado a atenção de vários governos nacionais, foi quando em meio à tragédia do tsunami, pessoas morreram sem ajuda, porque as equipes de socorro não conseguiram se entender em virtude de os documentos e planilhas trocadas, não chegavam claras ao outro lado devido ao formato.
Aqui segue o artigo do João Fernando, publicado no www.bestlinux.com.br :ODF: Há um esperanto dos arquivos
Escrito por João Fernando
31-Mar-2007
Um grupo de empresas quer instituir um idioma universal dos documentos eletrônicos - e enfraquecer o domínio da Microsoft nesse lucrativo mercado.
A operação de auxílio às vítimas do tsunami no final de 2004 foi marcada por todo tipo de dificuldade. Percalços seriam inevitáveis em uma tragédia dessa proporção, que deixou um rastro de 200 000 mortes no Sudeste Asiático. Mas as equipes enviadas por mais de 60 países depararam com um problema inesperado: os relatórios e as planilhas trocados entre elas muitas vezes não abriam ou sofriam perdas de configuração que comprometiam seu entendimento. Como se não bastasse a dimensão da tragédia, os trabalhos de resgate e apoio às vítimas tiveram de enfrentar as complicações da tecnologia. Evitar situações como essa é um dos objetivos que levaram um grupo de pesos pesados da indústria de tecnologia, incluindo nomes como IBM, Sun Microsystems, Oracle e Google, a apoiar a criação de um padrão universal para documentos de escritório. Assim nasceu o Open Document Format, ou simplesmente ODF.
Essa poderia ser apenas a última sopa de letras num mercado notoriamente afeito a siglas incompreensíveis, mas é bem mais do que isso. O ODF é especialmente importante por dois motivos. O primeiro é que o padrão funciona como uma espécie de esperanto dos arquivos de computador, um idioma universal que garante a comunicação entre programas de origens diferentes, sem a necessidade de um intérprete. Mas o principal motivo é que essa tecnologia oferece uma garantia de que as montanhas de arquivos eletrônicos gerados diariamente poderão ser lidos no futuro. Quando uma companhia ou um órgão público cria documentos num formato proprietário, está amarrado a um fornecedor de software. Como saber se o fornecedor em questão estará no mercado dentro de, digamos, 20 anos? Ou 50 anos? "Se a carta de Pero Vaz de Caminha tivesse sido escrita com base em um conjunto de caracteres dominados por um único fornecedor, hoje provavelmente não seríamos capazes de lê-la", diz André Echeverria, diretor de marketing da subsidiária brasileira da Sun Microsystems.
Não é à toa que são os governos que prestam mais atenção no ODF. Desde janeiro, os documentos públicos do estado americano de Massachusetts são criados somente em ODF. Minnesota e Texas logo seguiram o exemplo e ainda neste ano votarão projetos de lei que tornam o padrão aberto obrigatório para arquivos públicos, incluindo textos, planilhas e apresentações. Em março foi a vez da Califórnia, do governador Arnold Schwarzenegger. O Brasil foi um dos pioneiros em abraçar o ODF. Já existe uma recomendação do governo federal para que órgãos públicos utilizem esse padrão. Embora ela não tenha força de lei, Rogério Santanna, secretário de Logística e Tecnologia do Ministério do Planejamento, espera que a diretriz seja seguida. "Temos de arquivar documentos por décadas ou mesmo séculos."
Todo esse burburinho chamou a atenção da Microsoft, que domina amplamente o mercado de programas para escritório. A onipresença do pacote Office -- que, ao lado do Windows, responde pela maior parte dos lucros -- deixa a companhia de Bill Gates numa situação extremamente confortável. A empresa não precisa se preocupar em garantir que seus programas abram arquivos de fornecedores rivais. O contrário não é verdadeiro: todos os fabricantes se esforçam para que seus produtos sejam compatíveis com o Office. Se o ODF for amplamente disseminado, a Microsoft perderá essa vantagem. Uma porta -- vá lá, uma fresta -- terá sido aberta para que outros programas ganhem mercado.
A Microsoft diz que não é contra padrões universais e criou um adaptador para que os programas do Office trabalhem com ODF, o que é também uma forma de garantir que seus produtos não serão automaticamente varridos de governos que optarem pelo ODF. Mas a gigante foi além e tenta aprovar outro formato aberto, o Open XML, sob a alegação de que o ODF é muito pobre em funcionalidades. Ditar o padrão vigente no mercado é um trunfo valioso no mundo da tecnologia. Exemplos não faltam. Nas décadas de 70 e 80, o VHS (da JVC) e o Betamax (da Sony) brigaram para definir o padrão de vídeos. No final, o VHS ganhou a peleja e o Betamax acabou restrito a uso profissional, sobretudo em emissoras de TV. Num caso mais recente, o Blu-ray, formato de disco óptico com grande poder de armazenamento, disputa com o HD-DVD qual será o substituto dos atuais DVDs. Com a chegada do Open XML, o ODF enfrentará o mesmo tipo de concorrência. A boa notícia é que ambos são padrões abertos, que garantirão maior independência tecnológica para empresas e governos. Parece certo que haverá um esperanto dos arquivos de escritório. Resta saber quem determinará as regras gramaticais desse idioma universal dos computadores.